quarta-feira, 7 de novembro de 2007

Contabilidade

Egberto nota um certo tédio ao ter que conviver com uma realidade que não condiz com seus sonhos. Ele fita a lista de tarefas a fazer. Longa lista. Desinteressante. Excesso de números. Totalmente sem emoção. Seus pensamentos vagueiam longe dali, imaginando uma realidade alternativa. Nessa realidade as coisas são mais fáceis. Ele tem a riqueza que deseja, o sucesso almejado e a tranquilidade profissional que gostaria de ter. Ele faz o que gosta, ganha muito bem por isso e se sente mais que seguro.

O sonho dele era ser escritor. Mundos de idéias pululam em sua mente. Desejos ardentes de despejar incessantes torrentes de palavras no papel o queimam por dentro. Fazem com que se sinta irrequieto em funções administrativas e rotineiras. Ele odeia contabilidade. Ele ama as palavras. Ele ama descrever o mundo que o rodeia.

"Um dia nunca é igual ao outro! Nesta empresa temos emoções diárias! Tem que matar um leão por dia para sobreviver: quando você pensa que acabou uma, já vem outra!"

Todas exclamações típicas de quem está atabalhoado de trabalho. Mas, no fundo no fundo, não passa de trabalho administrativo. Até as bombas já se tornaram rotinas. Não tem mais emoção. O tumulto virou ruído de fundo. Aquelas frases viraram ecos sem sentido, vazias de conteúdo. Viraram mera retórica conversacional para a hora do cafezinho.

Egberto encara a tela do seu computador. A tela o encara de volta.

- Tá olhando o que?

- Tô olhando tua cara de parvo, olhando desmotivadamente pra mim.

- Cara de parvo, eu?

- Ou de bobo, como preferir. Parece que encara uma planilha como quem vê o jornal das 8 (da semana passada).

- hmpfmpff... E não deixa de ser. Você não me apresenta nada de novo!

- Claro, queridinho. Quem tem que trazer novidade para esta telinha é você, não eu. Sou mera consequência dos teus clicks... Percebe?

- Sei...

- Gosto quando teus olhos brilham, olhando pra mim. Isso em geral acontece quando você assiste algo divertido no YouTube. Ou quando lê um e-mail especialmente interessante (o que só acontece com e-mails particulares, claro). Os papos via MSN então... esses são quentes. Vejo você viajando, se transportando a outra realidade.

- Ah... isso eu gosto! Conversar com esse povo louco, que só fala besteira, que ri sem medo de ser feliz, que critica sem medo de represálias, que fala de tudo um pouco! Isso é de veras desestressante!

- Pois é, mas não é pra isso que você está sendo pago!

- Ihhhhh, agora você virou meu patrão, foi? Ou vai se intitular a "voz de minha consciência"???

- Que nada. Eu só observo. Vejo tuas grandes sacadas, vejo tuas perdas de tempo, vejo tuas ações efetivas e contundentes, vejo tuas enrolações.

- To achando que você vê demais. Será que se eu te trocar por um modelo mais antigo vai ver menos e ser menos enxerido?

- Ha ha ha! Até parece!

- Até parece o que?! Você está é muito abusado!

- Eu? Vê se te enxerga! Você precisa ver sua cara de louco, conversando com um computador! Ai se alguém te olha agora! Vão te internar, você vai sair daqui na camisa de força! Ha ha!

- (...)

- Caiu a ficha, foi? Se deu conta?

- Me dei conta que estou trabalhando demais e perdendo minha sanidade. Imagina, prestando contas a um computador!?! Aliás, já deu a hora. Vou bater meu cartão e sumir daqui. Agora só amanhã.

- Boa noite, usuário querido!

- Boa noite, meu velho Compaq.

- Bom descanso.

- Obrig... Ah! Olha eu falando com o computador de novo!

Egberto desliga o computador, deixa a contabilidade de lado e volta a este mundo, resmungando o quanto detesta aqueles lançamentos contábeis sem fim. Pelo menos até encarar o trânsito no seu carrinho 1.0. Aí ele vai divagar novamente. Quem sabe ele conversará com o volante...