Longas horas me separam da realidade
Tempo
Dia e noite
nada mais são que manifestações exteriores de uma realidade que não me pertence
Navego num mar interior
capturado em meus mundos
de um continente a outro
divagando, passeando, viajando
Meu mundo me recebe e me acolhe
Como o lar que acolhe o filho pródigo retornando
Meu mundo me dá espaço
Um espaço que a realidade externa nunca deu
(ou eu nunca soube colher)
Lá fora o tempo passa, nuvens vem e vão, em ritmos incoerentes e inconstantes
Como num filme que acelera o relógio
Dias sucedem noites que sucedem dias que sucedem noites
E aqui dentro estou eu
Aqui dentro eu sou
Mas a alienação não é total, já que os dois mundos se tocam
A alienação dá lugar a intercâmbios tresloucados ou super sérios com o mundo exterior
Me relaciono
Me comunico (pobremente, mas comunico)
Me faço perceber como se estivesse presente
No mundo que todos acham ser seu
Rio deles
Me divirto com seus próprios devaneios
Quando acham que essa realidade é deles
Se tornam possessivos
Querem ter o controle
Como se algum ser humano pudesse ter o controle da folha amarelada que se desprende em seu derradeiro vôo numa tarde de outono
Ou pudesse controlar seu próprio envelhecimento
Ilusões de controle, é o que a modernidade nos traz
Nos faz pensar que controlamos a idade de nossa pele, de nossos músculos, de nosso coração
Quando na verdade não controlamos nada
Nada disso nos pertence
É uma realidade externa, exterior, alienada
Na qual apenas transitamos
E essa realidade existe para que tenhamos contato com outros seres nela alienados
Para que tenhamos os ensinamentos que este mundo pode nos dar
Através dos professores e mestres, sejam eles magistrados ou simples pessoas simples
Simples humildes que nos mostram o caminho assim como o Sol do equador nos mostra o oeste no poente de um casual final de tarde
Podemos aprender de tudo que esta estranha realidade nos apresenta
Podemos ver ensinamentos em cada momento de vida
Basta estar vivo
E acordado
Nem é preciso estar nessa realidade externa
Basta observá-la desde o conforto do mundo interno
Com a única condição de estar presente
De ser
sábado, 29 de setembro de 2007
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