Os olhos são a janela da alma. São a expressão do interior. São uma conexão entre dois mundos. Os olhos são o instrumento do voyeur, a arma do observador.
Eu olho, maravilhado, pela gigantesca janela que se oferece à minha frente. O cérebro curioso, ávido por ver, ver e ver mais, filtra informações. Uma aparente calma exterior domina minhas ações. Placidez, serenidade, a calma de quem contempla. Mas por dentro, os neurônios fervem, degustando a paisagem que se movimenta segundo leis próprias. A paisagem, com leves movimentos, vai se transformando aos poucos, alheia aos observadores. O sol muda, afundando no poente. O céu gradua suas cores, o ar adquire texturas diferentes. Veículos se movimentam, também alheios aos que olham. Vêm e vão, de acordo com seus próprios desígnios, com suas rotas traçadas – predestinados.
Aos poucos o cérebro filtra novas informações. Ao longe se perfila um grupo de torres. Sinal longínquo da civilização, sinal difuso num horizonte enfumaçado, sinal quase perdido. Um hotel ao longe, menos brumoso mas menos interessante. Pessoas se movimentam perto, logo abaixo de meus pés (que quase tocam o vidro).
A vida flui.
Tic
Dezenas, talvez centenas de vidas seguem suas rotinas, fazendo aquilo que se espera que façam.
Tac
A vida circula os veículos, como pequenas formigas circundando uma folha que será carregada.
Tic
Cargas sobem e descem, bagagens circulam.
Tac
Se observados por mais tempo os movimentos começam a fazer sentido.
Tic
Procedimentos, rotinas, instruções seguidas, manuais cumpridos.
Tac
Tudo segue uma misteriosa ordem. Tudo previsível.
E nesse mundo estranho, mecânico, automatizado, algumas almas vivem de verdade. Alguns respiram de verdade. Observam, ouvem, cheiram, sentem. Às vezes até se perguntam qual o sentido de tudo isso – mas só às vezes. Percebem que estão entre autômatos, numa espécie de simulacro de mundo, onde as coisas simplesmente acontecem.
Os olhos olham.
Tic
O observador por trás dos olhos observa.
Tac.
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
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